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18 de Setembro de 2019

Choque de realidade

Pedro Magalhães Ganem, Operador de Direito
há 4 anos

Durante uma audiência criminal, a testemunha (um garoto de 15 anos), integrante da "classe penal" (pobre, morador da periferia da periferia, sem muita referência familiar), respondendo aos questionamentos do Promotor, passou a declarar que, à época dos fatos narrados na denúncia, quando tinha apenas 10 para 11 anos de idade, trabalhava de manhã e estudava de tarde.

Ao ouvir que o menino disse que trabalhava aos 11 anos, o Promotor, surpreso, questionou a este jovem com o que ele "trabalhava" nessa época e se era como menor aprendiz.

Diante do questionamento do MP, o menino disse que quando tinha 10/11 anos "mexia" com reparo de ventilador, tanquinho de lavar roupa, dentre outros, e que hoje, com 15 anos, trabalhava em uma marmoraria, como cortador de mármore.

Nesse momento, o Promotor, assustado com a "gravidade" do fato de o menor trabalhar em uma marmoraria, lhe questionou: "Mas você não sabe que isso (exercer a função de cortador de mármore como menor) é errado?"

A "criança", de pronto, sem pestanejar, retrucou: "Mas cê qué que eu faça o que?! Trafique? Mate os poliça?"

Silêncio na sala de audiência, o depoimento é encerrado e todos se olham, buscando entender aquele momento.


Choque de realidade


Tenho certeza que todos os que estavam nessa audiência guardarão a fala desse garoto para o resto da vida, tamanha a frieza com que aquele menino vomitou a realidade em nossa cara.

Estamos acostumados a criar nossos (pre) conceitos com base na nossa realidade (social/cultural/...), chegando a acreditar que tudo o que não é compatível com essa (nossa) realidade está errado.

Mas, quando entramos em contato (por mais que mínimo) com a realidade do outro, percebendo que existem coisas além do nosso campo de visão, levamos um choque, um choque de realidade.

E são choques como esses que possibilitam a modificação da forma como enxergamos o mundo.

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232 Comentários

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Belo texto! que estes "meninos" venham quem sabe um dia, mudar a realidade de nosso Brasil. continuar lendo

Obrigado!
Tomara Deus! continuar lendo

Hoje tenho 52 anos de idade e também comecei trabalhar aos 11 anos.
Sou advogado formado desde 1990 e para que isso se tornasse uma realidade tive que trabalhar duro.
Porém, o que mais me ajudou durante todos esses anos de luta foi a educação que os meus pais me deram.
Aqueles que tem desvio de conduta, não necessariamente são pobres, mas são aqueles que faltam uma educação familiar. O caráter do individuo é moldado dentro de casa através dos exemplos dos seus pares. continuar lendo

Concordo em gênero, número e grau, Davi! continuar lendo

O Promotor deveria responder: sim é isso que eu e todo o governo queremos. Pois se você e todos os pobres não virarem bandidos nós BUROCRATAS IMBECIS do ESTADO MASTODÔNTICO não seremos mais necessários! continuar lendo

A questão e que nossas leis trabalhistas tampouco se adequam a realidade, são difíceis de cumprir, engessam relações de trabalho e impedem o crescimento do país e a geração de emprego e renda para seus cidadãos. Um menino de quinze anos que trabalha em uma marmoraria deveria frequentar uma escola em paralelo, ainda que fosse uma escola técnica, para lhe dar um ofício mais para frente (como de marceneiro eletricista, que é extremamente necessário e cada dia mais bem-remunerado, nesse país de excesso de bacharéis, muitos formados em faculdades de péssima qualidade, o que serve apenas para inchar o mercado, desvalorizar a prática da advocacia e prejudicar o próprio andamento da Justiça e garantias dos direitos do cidadão). A realidade é que muitos menores de dezoito anos precisam trabalhar, muitas vezes para ajudarem nos custos do lar. Que o façam então com segurança e limites, visando o seu bem-estar, desenvolvimento pleno, tempo para o lazer, desenvolvimento que os possibilite terem uma vida melhor para si e seus familiares, para que possam sobreviver de seu sustento de forma digna. continuar lendo

Parabéns Davi Moreira, seus pais e sua família foram ótimas referências, coisas que hoje carecemos tanto. Quisera Deus que todos recebessem a mesma educação, o amor e os exemplos que herdou. continuar lendo

É mais fácil olhar o outro enfatizando suas atitudes "erradas" ou fora do padrão, do que lançar um olhar mais humanitário, que procure desvendar a realidade de sua vida; o porquê de suas ações. Coisas de seres humanos!
Ótimo texto Dr. Pedro. continuar lendo

Fabíola, valeu pelo elogio.
Essa é uma das razões que tanto gosto do Direito Criminal, a convivência com a realidade social, a verdade da rua, nua e crua.
As maiores "injustiças" penais estão nessa desigualdade entre quem é acusado e quem julga/acusa/defende/estagia... continuar lendo

A rigor, certo seria nem "matar os poliça", nem trabalhar, mas estudar. A dura realidade é que na mente do menino, agora rapaz, a única alternativa à marmoraria seria o crime. Triste mesmo.
Enquanto nossas escolas estiverem "fabricando" analfabetos funcionais, nossa sociedade vai continuar "fabricar" bandidos por tabela, e cairemos na lógica do menino: 'se não for trabalhar, terei que cometer crimes', já que o estudo não mostra ser capaz de conduzir a uma melhora de vida. continuar lendo

Isso poderia ser o melhor para ele, mas é uma questão subjetiva, quem deve decidir o que é melhor para o menino no final das contas, é ele mesmo. continuar lendo

Claro, Sérgio!
Não há estímulo nenhum no estudo, ainda mais para quem faz parte das classes sociais mais baixas. O estudo representa um investimento a longo prazo e essas crianças não têm visão de futuro. Como, então, cobrar que estudem?!
Mas, nesse caso citado, o menino conciliava o estudo ao trabalho, mesmo, talvez, sem dar a devida importância à educação. continuar lendo

Sérgio
Também concordo, que mesmo que seja prática e uma realidade inevitável a alguns garotos e que quanto mais temos crianças fora da escola temos analfabetos funcionais e oportunidades de crescimento perdida.
O que devemos pensar? Se é clara o exemplo que estamos dando, onde elegemos deputados, vereadores, senadores e até presidente sem estudo?
Quem garante que uma pessoa que não fez nenhuma faculdade saberá elaborar uma lei? ou que é pior julgar essa lei se é benéfica ou não?

Então qual o exemplo estamos dando para as crianças e Jovens?
Como podemos olhar nos olhos dele e dizer a famosa frase "Se quer crescer na vida meu filho, estude".

Isso é uma reflexão que devemos fazer, pois ao mesmo tempo que as crianças precisam trabalhar, pois tem desejos e anseios que não são atendidos pelo governo, temos a produção de mais classe desqualificada e sem futuro próspero. continuar lendo

Excelente comentário! continuar lendo

A questão dele não é melhorar de vida, é sobreviver. Ou trabalha ou passa fome! Infelizmente. continuar lendo

Prezado Sérgio Silva: não acredito nessa correlação entre "escolas fabricando analfabetos funcionais" e "produzir bandidos". Pode até ser verdadeira em parte, mas não a regra. Ou então como explicar a quantidade enorme e indecente, nos dias de hoje, de pessoas nascidas na elite ou que chegaram à elite, praticando crimes os mais diversos? Principalmente envolvidos em corrupção, como estamos cansados de ver todo dia na TV. Com certeza estudaram em boas escolas e estão longe, muito longe de serem "analfabetos funcionais". Muito pelo contrário, a maioria tem curso superior e muitos deles tem assento no Congresso Nacional... continuar lendo

Sessenta anos atrás essa era a realidade no rincão do Brasil de onde eu venho:
Os meninos trabalhavam e todos os que eu conheci desde então, tornaram-se homens de bem, pais exemplares, a maioria bem-sucedidos,
profissional e financeiramente.
Espero que o "choque de realidade" acorde promotores, juízes, juristas, legisladores. continuar lendo

Sabe qual é um grande problema que eu vejo, Maria, e não consigo entender? Estamos criando nossos filhos, educando-os, de uma forma diferente daquela como fomos criados (educados). continuar lendo

Sou do Interior do Espirito Santo,da roça, radicado em São Paulo desde 1972. Não sou de uma Família rica, más não miseraveis,aos 5 anos de idade eu Trabalhava, Minha Mãe fazia um buraco na sombra de um pé de café, colocava folhas de bananeira seca para forrar o buraco para se transformar em um Leito confortavel para minha Irmã que no maximo completara 3 meses de idade,com ramos do próprio café eu espantava pernilongos e outros para não sugar minha irmãzinha,e com cuidado para nada acontecer . Minha Mãe estava liberada para ajudar meu Querido Pai no labor do Dia a Dia. Agradeço a DEUS pela Família que ele me confiou, eu e Irmãos aprendemos desde muito cedo a ser responsaveis,aprendemos que a Vida tem um custo,caso eu não supra este custo estou sendo pesado para alguem. Toda a Família São pessoas de Bem, sabe como Educar os seus Filhos, claro que hoje com muito mais dificuldade porque as Crianças, nossos Jovens são bombardiados com tudo que não presta, é só ligar a TV. Com respeito aos que pensam ao contrario. continuar lendo