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16 de Janeiro de 2022

Para 27% dos universitários, abusar de garota bêbada não é violência

Pesquisa do Instituto Avon e do Data Popular foi divulgada nesta quinta. Medo já fez 36% das mulheres deixaram de fazer atividades acadêmicas.

Pedro Magalhães Ganem, Advogado
há 6 anos

Uma pesquisa feita com homens e mulheres estudando em universidades brasileiras mostra que 27% dos homens entrevistados acreditam que, se uma garota tiver bebido demais, abusar dela não é uma forma de violência. A pesquisa "Violência contra a mulher no ambiente universitário", realizada pelo Instituto Avon e pelo Data Popular e divulgada nesta quinta-feira (3), também afirma que 14% dos homens e mulheres estudantes conhecem casos de mulheres estupradas, 13% dos homens já cometeram pelo menos um tipo de violência sexual, e 28% das mulheres já sofreram algum tipo de violência dessa natureza.

A pesquisa consultou especialistas e coletivos de estudantes universitárias para definir uma lista de tipos de violência contra a mulher. Entre os exemplos estão a agressão física, o estupro, o assédio sexual, a coerção (ser obrigada a ingerir bebidas alcoólicas ou drogas, ou ser drogada sem consentimento).

Também são consideradas violência a desqualificação intelectual e a agressão moral ou psicológica, inclusive ser xingada por rejeitar uma investida e ser incluída em rankings de beleza ou atributos sexuais sem autorização (veja todos os tipos de violência ao final da reportagem).

O levantamento ouviu um total de 1.823 estudantes de graduação e pós-graduação de todo o país: 1.091 são mulheres e 732, homens. A maior parte dos entrevistados são da classe média (53%) ou alta (36%) e 76% deles estudam em universidades e faculdades particulares. As perguntas envolveram tanto as atividades que ocorrem dentro das salas de aula como nos demais ambientes universitários, incluindo as festas e confraternizações entre estudantes.

Tanto os homens quanto as mulheres concordaram, na maioria das vezes, que a violência contra a mulher deve ser um tema debatido nas aulas, e que as faculdades precisam "criar meios de punir os responsáveis por cometer violência contra mulheres na instituição".

Entre as universitárias:

56% sofreram assédio sexual

49% sofreram desqualificação intelectual

12% foram forçadas a ingerir bebida alcoólica

11% sofreram tentativa de abuso sob efeito de álcool

10% sofreram violência física

63% das que sofreram violência não reagiram

Percepção dos homens

De acordo com o documento, "algumas das violências listadas são ainda vistas por boa parte dos rapazes como consequências naturais do comportamento da mulher ou brincadeiras sem intenção de ofender ou intimidar".

Aos homens, os pesquisadores perguntaram "quais das seguintes ações feitas contra uma mulher nas dependências da instituição de ensino, festas acadêmicas, competições ou trotes são formas de violência". Além de apenas 27% dos entrevistados terem dito que "abusar da garota se ela estiver alcoolizada" não é uma violência, 35% disseram que também não é uma violência "coagir uma mulher a participar de atividades degradantes, como desfiles e leilões".

Repassar fotos ou vídeos das colegas sem autorização delas não foi considerada uma forma de violência para 31% dos homens que participaram da pesquisa.

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Medo no ambiente acadêmico

Entre as perguntas direcionas apenas pelas mulheres, a pesquisa revela que 11% das universitárias mulheres disseram que já sofreram uma tentativa de abuso quando estavam sob efeito de álcool, e 36% delas já deixaram de fazer alguma atividade na universidade, por medo de sofrer alguma violência.

"Tentaram me agarrar, me beijar à força, como se fosse brincadeira. Todo mundo achou graça. Menos eu", afirmou uma das entrevistadas.

Uma em cada dez mulheres disse ainda que sofreu algum tipo de violência física (sem conotação sexual), e 4% dos homens admitiram terem cometido violência física contra uma mulher no ambiente universitário.

"Os veteranos me pediram para beijar um deles, que seu eu não beijasse iam tirar meu sutiã. Não quis e eles começaram a me bater. Minha amiga não quis beber, jogaram pinga nos olhos dela", relatou uma estudante à pesquisa.

A maioria das mulheres, ao sofrerem algum tipo de violência, se intimida: 63% delas afirmaram que não reagiram quando sofreram a violência.

Significado de violência

A pesquisa mostrou ainda que algumas atitudes consideradas como uma violência são naturalizadas tanto por homens quanto pelas mulheres.

Segundo os dados, só 10% das universitárias relataram espontaneamente terem sofrido violência de um homem na universidade ou em festas acadêmicas. Mas, quando recebem uma lista com tipos de violência, 67% das mulheres reconheceram que foram submetidas a pelo menos um destes tipos.

Já entre os homens, só 2% admitiram espontaneamente que já cometeram algum ato de violência contra uma mulher na universidade ou em festas acadêmicas. Considerando a lista de tipos de violência elaborada pela pesquisa, esse número subiu para 38%.

Formas de violência contra a mulher na universidade:

Assédio sexual: Comentários com apelos sexuais indesejados / Cantada ofensiva / Abordagem agressiva

Coerção: Ingestão forçada de bebida alcoólica e/ou drogas / Ser drogada sem conhecimento / Ser forçada a participar em atividades degradantes (como leilões e desfiles)

Violência sexual: Estupro / Tentativa de abuso enquanto sob efeito de álcool / Ser tocada sem consentimento / Ser forçada a beijar veterano

Violência física: Sofrer agressão física

Desqualificação intelectual: Desqualificação ou piadas ofensivas, ambos por ser mulher

Agressão moral/psicológica: Humilhação por professores e alunos / Ofensa / Xingada por rejeitar investida / Músicas ofensivas cantadas por torcidas acadêmicas / Imagens repassadas sem autorização / Rankings (beleza, sexuais e outros) sem autorização


Fonte: G1

34 Comentários

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"Que bom". Eu ficaria preocupado se somente 27% achassem que isto é crime. 27% de irresponsáveis não é uma margem assustadora numa sociedade estúpida como a nossa. continuar lendo

Isso sem considerar aqueles que tiveram medo de assumir isso, né?! continuar lendo

O que eu acho mais assustador é que tem mulheres que também não acham nada de mais encher a cara e acabar "ficando" com alguém que elas depois nem lembram quem era nem o que aconteceu. E repetem esse comportamento, sem a menor preocupação.
Talvez essa percepção "estanha" desses 27% tenha a ver com a experiência de ver que depois a mulher "abusada" não demonstra ter qualquer problema em relação ao que tenha acontecido. Então, para eles, se a mulher não achou que foi abusada, porque eles achariam? continuar lendo

John Doe, o senhor estah culpabilizando a ou as vitima (s) pelas violencias que soufreram ou simplesmente querendo se justificar? continuar lendo

Carla,

Talvez você não tenha entendido o que eu disse. Leia com mais atenção.
De qualquer forma, explico:

O que eu trouxe à discussão é que essa visão de que não tem nada de mais abusar de uma mulher bêbada (no olhar daqueles 27%) pode, em grande parte, ter explicação em que algumas mulheres (e não são poucas) não se consideram vítimas.
Ao contrário, existe um comportamento, nessas mulheres, de achar que tal situação "faz parte da festa".
Sair com as amigas, beber até passar mal, acabar numa cama não sabe onde nem com quem, não é visto, por elas mesmas, como um abuso, nem sequer como algo ruim.
No dia seguinte reencontram as amigas, contam que "a festa foi boa" e sequem juntas para beber novamente.
Nesse contexto, os homens, é claro, também veem da mesma forma. Não consideram um abuso. Eles não são, necessariamente, marginais estupradores. Também para eles "faz parte da festa".

Gostaria que você explicasse parte final a sua frase. Estaria você insinuando que eu abuso das mulheres? continuar lendo

“Violência” nas Universidades.

...“só 10% das universitárias relataram ter sofrido violência. Mas pela lista dos tipos de violência, 67% das mulheres reconheceram”. “Entre os homens, só 2% admitiram ter cometido ato de violência contra uma mulher. Considerando a lista esse número subiu para 38%”

Como viver em uma sociedade onde não há a clara noção do que é violência, ou ainda que acha que atos, que deveriam ser considerados como violência, fazem parte da vida cotidiana, como se fosse normal?
O que esperar de uma sociedade que cumpre as leis mais por causa da ameaça de sanção (isso quando cumpre) do que por um padrão ético ou ainda uma base pessoal sólida de valores e princípios?

Quando de uma análise geral e até filosófica sobre a questão; concluímos que talvez o pior momento não seja quando temos a consciência de que a sociedade atual brasileira não tem a menor noção dos conceitos das palavras: Ética, Lei, Ordem, Valores e Princípios, Respeito e Amor; e sim quando não observamos uma busca de melhora sócio-cultural. Não há perspectiva concreta de melhoria no que tange aos princípios basilares de uma sociedade civil desenvolvida e organizada, por falta de políticas públicas que nos leve a esse estágio de maturidade, principalmente por falta de um sistema de ensino sólido e eficaz que transcenda o ensino científico abrangendo também tais aspectos humanos.

Ocorre que não há interesse daqueles que detém o poder em fazer da sociedade brasileira uma classe pensante e ética.

De fato no Brasil não há luz no fim do túnel! (se houver deve ser o trem que nos atropelará!) continuar lendo

São 27% de canalhas que se imaginam homens apenas porque possuem o órgão sexual masculino.
São 27% de ignorantes que por acaso frequentam um curso superior e com certeza no futuro, usarão seus cargos ou seus títulos para abusar sexualmente de quem não puder se defender.
São 27% de pessoas que não fariam falta alguma à sociedade, muito pelo contrário.
Pobre Brasil com esse tipo de imbecil ligado o seu futuro. continuar lendo

E o pior, se aproveitam de um momento de fragilidade, de impossibilidade de defesa para praticar o ato.

Demonstra, além de tudo mais, a falta de coragem e o perigo que esses atos "às escuras" são, pois demonstram que são capazes de muita coisa "quando ninguém tá vendo". continuar lendo

A minha sorte é que eu sou uma mulher tipo "grandona", por que na minha 1ª semana de aulas teve o trote dos veteranos. Eu simplesmente ameacei de sair na pancadaria se continuassem com a coação....rapidamente as "brincadeiras" morreram.
Resumindo: Tive que me impor, sem pensar se depois disso seria ou não aceita no grupo (até porque quando iniciei meus estudos acadêmicos, já passara da fase de não viver sem turma). Será que seria esse o motivador principal do silêncio dessas mulheres, o medo da exclusão? continuar lendo

Acredito que seja um dos motivos, mas não o principal. O medo em geral (de não acreditarem, de sair como vilã, de ser ainda mais violentada, estigmatizada, ...) leva a isso. continuar lendo